quinta-feira, 20 de março de 2014

Entrevista com o escritor Whisner Fraga no Ligados FM

LINK ORIGINAL: AQUI.

Whisner Fraga nasceu em Ituiutaba-MG, em 1971. Doutor em engenharia, professor e escritor. Participou de inúmeras antologias de contos, a maioria delas oriundas de premiações em concursos literários, incluindo o Concurso de Contos Luiz Vilela, que era considerado o maior certame literário do país. Possui também textos publicados em revistas como a Cult, Bravo!, e a Revista E, do SESC. 

Tem os livros publicados: Seres e Sombras, de 1997, Edição do Autor; Coreografia dos Danados, 2002, Edições Galo Branco; A Cidade Devolvida, 7Letras, 2005; As espirais de outubro, Nankin, 2007; O livro dos verbos, Dulcinéia Catadora, 2008; Abismo poente, Ficções, 2009; O livro da carne, 7letras, 2010 e “Sol entre noites”, Ficções, 2011. 

Lançará amanhã, em parceria com Ronaldo Cagiano, o livro “Moenda de silêncio”, pelo selo da Dobra Editorial.

O autor Whisner Fraga

Ligados: Como foi o início de sua trajetória como escritor? 

Whisner Fraga: Profissionalmente iniciei a carreira em 1997 com o livro “Seres e Sombras”. Eu banquei a publicação, bem baratinha, de 500 exemplares. Eu achava que essa obra me levaria ao estrelato imediatamente, pois era ingênuo demais. Mal sabia que os contos eram uma porcaria e que a edição ruim não ajudaria em nada. Antes disso eu editava e distribuía fanzines poéticos, que servia como veículo de divulgação de meus versos e também dos de vários colegas. Mas a verdade é que sou escritor desde que aprendi a ler e a escrever. Trabalhei meus primeiros textos com nove, dez anos de idade. 

Ligados: O que o levou a escolher Engenharia e não Letras? 

Whisner Fraga: Eu gosto da Matemática e também da Física e eu sabia que se cursasse Letras teria mais dificuldade para me ajeitar profissionalmente. Eu tinha a convicção, desde muito cedo, que não se vive de literatura no Brasil e, mesmo no mundo, há poucos escritores que conseguem sobreviver dignamente com os direitos autorais oriundos de suas obras. Assim, acreditava que a Engenharia me traria o sossego financeiro de que eu precisaria para poder criar. E foi o que ocorreu. Na verdade, exerci o ofício durante pouco tempo, logo tratei de me qualificar, pois queria seguir a carreira acadêmica, que é afim à literária. Mais tarde consegui cursar Letras e até Pedagogia e posso afirmar que os dois cursos em nada contribuíram para o aperfeiçoamento de minha ficção. Sobre este assunto, gostaria de acrescentar que sou muito curioso e aberto a qualquer tipo de conhecimento. Penso que tudo pode ser assunto para meus livros, basta ser um bom observador. 

Ligados: Quantos e quais livros já lançou? 

Whisner Fraga: Lancei 8 livros: “Seres e sombras”, em 1997, “Coreografia dos danados”, em 2002, “A cidade devolvida”, em 2005, “As espirais de outubro”, em 2007, “Abismo poente”, em 2009, “O livro da carne”, em 2010, “Sol entre noites”, em 2011 e “Moenda de silêncios”, em 2012, livro escrito em parceria com Ronaldo Cagiano. 

Ligados: Você publicou obras em diversos gêneros literários. Qual deles te proporciona maior prazer e por quê? 

Whisner Fraga: Todos os gêneros me dão igual prazer. Não tenho preferência. Estou sempre escrevendo versos e crônicas enquanto trabalho contos e romances. Mas se eu tivesse de escolher, optaria pelos contos. É o gênero que me permite maior ousadia formal. Como o conto é uma narrativa relativamente curta, posso trabalhar melhor a linguagem, tornar o texto mais denso. Eu tento não me prender a gêneros também, de maneira que os livros “Abismo poente” e “Sol entre noites” não podem ser caracterizados como romances ou como coletâneas de contos. Como leitor, gosto de todos os gêneros, não tenho absolutamente nenhuma preferência. Tenho sim, uma exigência: tudo que leio tem de ter qualidade.

Ligados: “Sol entre noites” e “Abismo poente” contam a história da imigração libanesa para uma cidade do interior mineiro. Como surgiu essa ideia? 

Whisner Fraga: É verdade. A ideia surgiu porque conheço bastante a cultura deste povo, cresci com uma família libanesa, no interior de Minas Gerais. Mas não são, de maneira alguma, livros autobiográficos. Pesquisei intensamente a história do Líbano para compor as personagens e a trama. Às vezes digo por aí que não há quase nenhuma história nos livros, o que, evidentemente, é uma pegadinha. É que a linguagem presente nos dois livros é muito complexa, trabalhada. Fui acusado até de ser barroco demais. É óbvio que quem fez essas considerações não entende nada de literatura. De resto, o que mais há na literatura é gente presunçosa, que mal lê um livro ao mês. Acontece que hoje os leitores e críticos são preguiçosos e rejeitam tudo que não é fácil. Pode ter certeza que muitos acadêmicos têm “O alquimista” como livro de cabeceira.

Ligados: Em 2010 você publicou um livro de poesias intitulado “O livro da carne”. Porque escolheu este nome, e como planejou a sua estruturação? 

Whisner Fraga: O nome dialoga com um livro que foi muito importante na minha vida, que é a Bíblia. Minha família é muito religiosa, estudei em colégio de padres, fiz primeira comunhão e crisma e só não fui coroinha por timidez mesmo. Hoje não frequento mais nenhuma igreja, mas essa educação cristã me marcou muito. Então “O livro da carne”, que vem resgatar essa minha infância mineira, aborda muito essa questão. A carne transposta para o verbo e para o verso. A estrutura do livro é simples: como falo de minha infância, eu a dividi em três fases: a inocência, a descoberta e o desgosto. 

Ligados: Você lançará, ainda em setembro, o livro “Moenda de Silêncios”, em parceria com o Ronaldo Cagiano. Sinta-se a vontade para fornecer detalhes a respeito da obra. 

Whisner Fraga: É um livro juvenil. Acho que para os padrões atuais de literatura, talvez o mercado não considere a obra juvenil, mas a concebemos assim. Há dez anos escrevemos o livro juntos, mas sem essa de cada um criar um capítulo ou um trecho. Escrevemos juntos mesmo, um interferindo no texto e no estilo do outro. Foi uma experiência muito enriquecedora, aprendi muito com o Ronaldo. Aí deixamos o livro na gaveta, eu sentia que a obra não estava pronta e Cagiano também. Então, há um ano e meio retomamos a obra e a retrabalhamos incansavelmente. Fizemos um trabalho profundo de reescrita e revisão e ficamos mais contentes com o resultado. Em vez de submetermos os originais a editoras, nós o inscrevemos em um concurso do governo de São Paulo e acabamos levando o prêmio. A obra será lançada primeiramente em Belo Horizonte, no dia 22 de setembro, pelo selo da Dobra Editorial. Posteriormente será lançada em São Paulo e no Rio de Janeiro. 

Ligados: Pretende disponibilizar uma segunda edição de “Seres e Sombras”, seu livro de estréia? 

Whisner Fraga: Não pretendo não. Aliás, sempre que encontro uma cópia deste livro em sebos, eu a compro para depois queimá-la. É um livro que eu quero que seja esquecido. O que eu fiz foi separar os melhores contos de “Seres e sombras”, reescrevê-los e adicioná-los às narrativas de “Coreografia dos danados” para uma segunda edição comemorativa deste último, que será lançada em outubro próximo. 

Ligados: Os leitores que têm a oportunidade de ler todos os seus livros percebem que eles dialogam entre si. Esta intercalação é intencional? 

Whisner Fraga: Sim, é intencional. Eu sempre gostei de intertextualidade. Tem outra brincadeira que costumo fazer também, que é copiar frases inteiras de um livro e colá-las em outra obra. Acho isso divertido. Recuperar personagens de uma obra, inseri-las em outro contexto, em outro relato. Todas as minhas obras se comunicam entre si, vou deixando pistas aqui e ali.

Ligados: Tem ideia de quantos Concursos Literários já venceu? 

Whisner Fraga: Não faço ideia. Às vezes vejo escrito no currículo de algum escritor que ele já ganhou mais de duzentos certames e, se a gente for ver, a literatura do sujeito é fraca. Claro, há concursos e concursos. Há colocações e colocações. Por exemplo, uma menção honrosa em um evento caça-níquel entra nessa conta? O que eu posso lhe afirmar, sem arrogância nenhuma, é que já venci os principais concursos de contos e poesias do país. 

Ligados: Possui textos em antologias? 

Whisner Fraga: Também não faço ideia de quantas antologias contam com meus trabalhos. Sou desorganizado, neste sentido. Não guardo matérias em jornais, não faço inventários ou listas. Mas posso citar de cor algumas antologias de que participo: “Os cem menores contos do século”, organizada por Marcelino Freire; “Primos”, organizada por Tatiana Salém Levy; “Geração zero zero”, organizada por Nelson de Oliveira e a antologia da editora alemã Lettrétage, organizada pela pesquisadora Marlen Eckl e que será lançada na Feira de Frankfurt em 2013. A versão brasileira desta antologia será lançada pela Editora Faces, da Bia Willcox e do Zeca Fonseca. 

Ligados: Qual a sensação de ter sido homenageado no Concurso de Contos do Tijuco? 

Whisner Fraga: Foi uma das maiores emoções da minha vida. Não que eu seja vaidoso, é que a homenagem veio de minha cidade natal. Quando eu comecei a escrever, minha grande ambição literária era vencer o Concurso Luiz Vilela, não porque era o maior prêmio literário do país, mas porque era organizado pela minha cidade. Então fiquei cinco vezes entre os dez selecionados, sendo que uma vez fui o vencedor. Cada um desses cinco prêmios foi muito especial, mas nem se compara a ser homenageado com um concurso de contos. É um reconhecimento que me enche de satisfação, me dá um ânimo danado. 

Ligados: Projetos? 

Whisner Fraga: Estou escrevendo dois livros, um de minicontos e outro de contos. Ambos estão adiantados. O de minicontos tem até título: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”. Gravei vários vídeos lendo esses pequenos textos e convidei amigos artistas para bolarem alguns também. Todos estão no youtube, qualquer um pode ir lá e conferir. Esses amigos são pessoas com um talento monstruoso, artistas que admiro muito pela ousadia formal e pelo desejo que têm de produzir algo novo. São eles: Edgar Franco, Daniela Lima e Carla Dias, por enquanto. Mas estou com outros nomes para convidar. 

Já o livro de contos não tem título ainda. Quer dizer, tem um provisório, que é “Algo tênue e dilacerado”. Essa obra foi concebida assim: são oito contos e todos narram a mesma história, sob o mesmo ponto de vista, que é o do narrador. A ideia é lançar o de minicontos em 2013 e este de contos em 2014, algo desse tipo. 

Depois, estou trabalhando numa ideia com a Daniela Lima. Será outro livro escrito a quatro mãos. Estamos na fase de discussão da trama. Desde que li o livro de estreia da Daniela, senti que teríamos de escrever algo juntos, pois ela tem um estilo muito forte e bem próximo ao que proponho. Temos a intenção de começar o livro ainda este ano. 

Perguntas rápidas: 
Autor(a): António Lobo Antunes; 
Ator(Atriz): Jeanne Moureau; 
Site: Concursos Literários;
Banda: Ira!; 
Música: La bohème; 
Filme: Encouraçado Potemkin. 

Links na internet: 

Links dos seus produtos nas lojas online: 
Saraiva: Aqui
Cultura: Aqui
Submarino: Aqui
Travessa: Aqui;
Ficções Editora: Aqui.

Ligados: Considerações finais. 

Whisner Fraga: Gostaria de agradecer a oportunidade de fazer esta entrevista e queria acrescentar que sempre estou disposto a dialogar com meus pares - então qualquer pessoa que quiser me mandar uma mensagem será muito bem-vinda. Responderei com prazer.


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 21/09/2012 - Objetivo: www.ligadosfm.com

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