segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Entrevista com o escritor Henry Bugalho no Ligados FM

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O fotógrafo e escritor Henry Alfred Bugalho é graduado em Filosofia e Especialista em Literatura e História. Publicou até o momento quatro livros, incluindo o Best-selling “Guia Nova York para mãos de vaca”. Além de colaborar com alguns sites, é editor da revista eletrônica e independente “Samizdat”; é também um dos fundadores da Oficina Editora. Nascido em Curitiba, reside atualmente na Perugia, Itália.

O autor Henry Bugalho

Ligados: Como foi o seu início na Literatura? 

Henry Bugalho: Nem sempre desejei ser escritor, apesar de estar sempre vinculado às artes. Quando criança e adolescente, queria ser desenhista de Histórias em Quadrinhos, depois pianista. 

Tinha uns vinte anos quando comecei a pensar seriamente na escrita. Eu havia me casado, sem grana para transportar o piano para meu apartamento novo e, talvez para compensar, escrevi alguns contos e meu primeiro (e impublicável) romance. Então se tornou um vício, que nunca mais consegui largar. Descobri que eu era um escritor muito melhor do que jamais seria como pianista. 

Ligados: Quais livros não podem faltar em sua biblioteca? Existe algum autor que influencia a sua criação literária? 

Henry Bugalho: Tenho pouquíssimos livros físicos, depois de ter perdido toda a minha biblioteca (com primeiras edições e obras raras) na minha última mudança de Nova York para Buenos Aires, por isto, só leio livros digitais hoje em dia, que são milhares em meu computador. Há alguns autores e obras que leio sempre, como “Ficções” de Borges e “O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, além de Kafka e Dostoievsky, que são imprescindíveis. 

Já escrevi muito sob influências sazonais. Meu primeiro romance veio na cola da leitura de “Os Buddenbrooks” de Thomas Mann, e já me inspirei em James Joyce, Kazantzakis, Borges e Pessoa. Hoje em dia, creio que já encontrei uma incipiente voz própria, que se parece pouco com o que já li por aí, apesar de ter alguns vestígios de Henry Miller e Milan Kundera. Penso que as minhas influências maiores nem são literárias, mas filosóficas. Schopenhauer, Nietzsche, Bataille e Foucault sempre pairam sobre tudo que escrevo, inevitavelmente fazem parte da minha compreensão do mundo. 

Ligados: Entre os seus quatros livros publicados, há algum mais especial, ou cada um é único de alguma forma? Aproveitando, fale um pouco sobre as obras. 

Henry Bugalho: “O Canto do Peregrino” foi editado, mas nunca publicado ou distribuído, portanto é uma obra inédita. Tenho um enorme orgulho deste meu primeiro livro, um romance histórico sobre os imigrantes europeus no Brasil. É nele que fica evidente a minha paixão pela música e pelo piano, pois são quatro gerações de uma família de músicos e que enfrentam enormes dificuldades para realizarem suas ambições. 

“O Rei dos Judeus” é também um romance histórico, desta vez abordando a figura de Jesus, da maneira mais realista possível. Foi um livro que me tomou quase 10 anos de pesquisa e que mudou muito desde a primeira linha escrita até a versão final. Tive de reescrevê-lo quase completamente, porque sempre que encontrava novas evidências históricas, eu me sentia obrigado a alterá-lo. 

“O Covil dos Inocentes” é um romance de mistério noir, escrito totalmente num blog num intervalo de alguns meses. Fazia parte de uma fase na minha produção literária na qual eu pretendia explorar vários gêneros aos quais não estava habituado a escrever, como ficção científica, terror, mistério, romântico, suspense e assim por diante. 

Por fim, “O Homem Pós-Histórico” é uma novela sobre a própria humanidade, o que nos torna o que somos, e como somos guiados por nossos instintos mais primitivos. 

Posso dizer que todos estes romances pertencem a uma fase de destruição (incluindo o inédito “Cassandra”, sobre a Guerra de Tróia), na qual eu desconstruo tudo aquilo que já acreditei ou admirei, e questiono alguns aspectos de minha própria identidade. Se eu tivesse de escolher o melhor, diria que “O Canto do Peregrino” é o que mais se aproxima à ideia original, o mais bem realizado. 

Ligados: O seu “Guia Nova York para mãos de vaca” tem sido um grande sucesso desde que foi lançado. Esta grande procura, em sua opinião, se dá ao fato de no Brasil existir pouquíssimos Guias de Viagens, ou acontece pelo fato da obra poder ser facilmente conciliada com as dicas existentes no Blog? 

Henry Bugalho: Até que existem bastantes guias de viagens no Brasil. O diferencial do “Guia Nova York para Mãos de Vaca” deve-se a duas características, na minha opinião: 1 - é um guia de viagens escrito por um brasileiro para brasileiros; quando se trata de uma tradução, perde-se muito do contexto no qual a obra foi concebida e redigida e 2 - o guia é informal; trata-se de um bate-papo com o leitor, sem aquele tom de autoridade, são apenas recomendações minhas, um sujeito simples e normal, para outras pessoas como eu. Não sou o dono do conhecimento, nem pretendo ser. 

E também sei, através dos comentários dos próprios leitores, que o sucesso tanto do livro quanto do blog é porque ele é divertido e bem escrito. Neste sentido, há uma grande vantagem em ser um escritor literário, pois sei exatamente o que quero dizer e que sensação gostaria de causar no leitor. Eu não sou um viajante que escreve, sou um escritor que viaja. Isto faz muita diferença. 

Ligados: Ainda na Literatura, você é organizador e editor da Revista eletrônica e independe Samizdat. Qual o objetivo da mesma, além de divulgar novos nomes sem se prender ao capitalismo? A concepção da revista seria possível sem os benefícios da internet nos dias atuais? 

Henry Bugalho: Na Revista SAMIZDAT, não estamos combatendo o capitalismo, pelo menos este nunca foi um dos nossos ideais. 

Tentamos contornar o bloqueio da indústria cultural aos novos talentos, àqueles que tem muito a dizer e pouco espaço de expressão. Há tantos escritores bons escrevendo contos, poemas e crônicas e que jamais serão publicados pelas editoras ou pelos grandes jornais, mas que ainda assim merecem nossa atenção. 

Simplesmente não podemos fechar os olhos ao que está ocorrendo e, pelo que percebo, esta lentidão do mercado literário, esta incapacidade de assimilar o novo e o extraordinário, de se renovar, pode ser também a causa de sua própria ruína. Nos EUA, o negócio anda feio para as grandes editoras, que estão a um passo de serem engolidas pela Amazon e pela legião de autores autopublicados. Nossa época trará grandes mudanças para o cenário literário e a SAMIZDAT, além de outras revistas e portais literários, é parte deste processo de transformação. 

Ela seria possível sem a internet, pois revistas literárias não são um fenômeno contemporâneo, mesmo assim, seria muito diferente do que é hoje. A SAMIZDAT publica autores de língua portuguesa espalhados pelos quatro cantos do mundo, e isto seria muito difícil de ser feito sem a internet. 

Ligados: Tanto o seu livro “O covil dos inocentes” quanto o “Guia Nova York para mãos de vaca” estão disponíveis em versões e-books, porém, o romance pode ser baixado gratuitamente, enquanto que o Guia é comercializado. Por que isto acontece? 

Henry Bugalho: A lógica é muito simples: eu vendo o que pode ser vendido, e distribuo gratuitamente o que não pode ser vendido. 

Partimos do pressuposto que quem viaja ao exterior pode pagar uns 20 reais para comprar um guia de viagens, faz parte de um dos gastos necessários. Não preciso convencer ninguém a comprar meu guia; os leitores vem ao meu blog, leem as dicas, empolgam-se e compram o livro, depois espalham a notícia para seus amigos. O sucesso do www.maosdevaca.com é no boca-a-boca. 

Agora convencer alguém a comprar um romance de um autor desconhecido, isto sim é trabalho duro! Primeiro, porque os brasileiros não dão tanto valor à produção literária nacional, depois, porque eles preferem comprar os livros dos autores já consagrados. Se eu quiser criar um nome e conquistar um público para meus romances, para mim o caminho mais simples e óbvio é dando-lhes gratuitamente parte deste material para que eles possam ler e fazer seu próprio julgamento. 

Como escritor de ficção, meu maior prazer é ser lido. Todavia, o que paga as minhas contas e minhas viagens são os livros de não-ficção.

Ligados: Visitando e morando em outros países, que comparação você faz em relação ao hábito da leitura no exterior e no Brasil? 

Henry Bugalho: Além do Brasil, morei em três outros países, com mercados literários muito distintos. 

Nos EUA, há uma verdadeira indústria do livro, com um público leitor imenso que compra e consome literatura. Americano valoriza a cultura e está disposto a pagar por ela. É comum encontrar nos metrôs, parques e praças muita gente com livro ou leitores digitais. No entanto, é um povo que lê primordialmente autores americanos ou de língua inglesa, com pouquíssima abertura para traduções de autores estrangeiros. Há poucas, mas gigantescas livrarias. 

Na Argentina, também há um grande público leitor, com incontáveis livrarias e sebos espalhados por toda a cidade de Buenos Aires. Os argentinos leem muita ficção e possuem uma rica tradição de escritores de renome. Por outro lado, é um país empobrecido pela crise, em evidente processo de favelização, e não percebo um grande interesse das novas gerações pela Literatura. 

Já na Itália, há um bom público de leitores, com espaço para autores locais e estrangeiros e com um cenário literário de vanguarda em ebulição. Você vê na TV programas específicos sobre leitura e literatura, com recomendações de livros e há muitas livrarias grandes. Os italianos valorizam bastante a cultura e não poderia ser diferente vindo de um país com sua riquíssima História. 

Por fim, no Brasil, é aquilo que já sabemos: um mercado forte de auto-ajuda, esoterismo e religioso, uma idolatria pelos best-sellers internacionais e vendas pífias de autores brasileiros. Uma classe média que só agora está começando a criar hábitos de leituras, mas com livros caros e poucas livrarias. Ao contrário destes três casos anteriores, o Brasil não é um país de leitores, o que afeta diretamente qualquer um com pretensões de tornar-se um escritor profissional. 

Ligados: Descentralizando um pouco o andamento da nossa entrevista, poderia nos fornecer detalhes sobre os seus diversos Blogs? 

Henry Bugalho: Escrevo vários blogs com distintas abordagens: 

Viagens para Mãos de Vaca (www.maosdevaca.com) - com dicas de viagem econômica para vários destinos do mundo, como EUA, Argentina, Chile, Brasil, Itália, Espanha, França etc. 

Cala a Boca e Clica! (www.calabocaeclica.com) - onde ensino várias técnicas para quem deseja aprender a fotografar melhor, inclusive com um curso completo de introdução à fotografia. 

Revista SAMIZDAT (www.revistasamizdat.com) - uma revista literária digital gratuita, trazendo vários autores talentosos da novíssima geração literária em português, além de traduções ou obras de autores canônicos. 

Blog do Escritor (http://blogdoescritor.oficinaeditora.com) - com recomendações e técnicas para novos escritores, além de artigos e observações sobre o mercado literário e publicação independente. 

Há alguns outros, mas sem grande repercussão.

Ligados: Está com algum projeto em andamento? 

Henry Bugalho: Sempre, e vários! 

Estou trabalhando em três romances diferentes, um baseado na minha experiência residindo em Nova York e outro em Buenos Aires, além de um terceiro, experimental, reunindo vários gêneros literários numa mesma obra. 

Além disto, estou trabalhando em guias para mãos de vaca para outros destinos do mundo e preparando a terceira edição do guia de Nova York. 

Ligados: Que dica você deixa aos novos escritores? 

Henry Bugalho: Se ainda houver tempo, desista! 

No entanto, se escrever é o que você ama e não consegue se imaginar fazendo outra coisa, prepare-se, porque você será ignorado, rejeitado e criticado até cansar. 

No mundo da Literatura, não são os melhores que vencem, são aqueles que conseguem suportar as porradas e as rasteiras, os cascas-grossas que aguentam os trancos e barrancos da carreira. São estes que sobrevivem no final. Os muito delicados e sensíveis tombam no meio do caminho. 

Há um mito que os artistas são sentimentais, mas isto é conversa fiada; para ser um artista é preciso trajar suas armas e armaduras e preparar-se para uma guerra sem fim. 

Perguntas rápidas: 
Autor(a): Fernando Pessoa;
Ator(Atriz): Harrison Ford;
Site: Wikipedia; 
Banda: The Beatles;
Música: Sonata nº 8 em dó menor, op. 13 “Patética”, de Beethoven;
Filme: “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio de Sica.

Links na internet: 

Links dos seus produtos nas lojas online: 
Guia Nova York para mãos de vaca: Aqui;
Cala a boca e clica: Aqui;
Oficina Editora (Catálogo): Aqui.

Ligados: Considerações Finais. 

Henry Bugalho: Ainda não sei se aplaudo ou devo temer o futuro. Muito está mudando e muito ainda irá se transformar. 

Esta é a hora na qual os visionários se destacarão do rebanho e criarão seus próprios caminhos. É um tempo de incertezas, uma época de revolução. 

Antes, eu desejava ter nascido na Grécia Antiga, durante o Renascimento ou na década de 20, para ver as grandes transformações artísticas e culturais da humanidade, mas hoje tenho orgulho dos nossos tempos, e talvez os escritores que ainda virão nos olharão com inveja por termos podido presenciar todo o rebuliço que a era digital causou. 

Nada será igual, e aqueles que se encolherem diante do desconhecido ficarão para trás ou serão devorados. 

Este é o momento do mergulho no desconhecido.


Autor: Thiago Jefferson - Criação: 24/08/2012 - Objetivo: www.ligadosfm.com

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