sábado, 20 de abril de 2013

Entrevista com o escritor mossoroense Thiago Galdino

Link original no blog 101 livros do RN: Aqui


101 Livros do RN: Thiago Galdino, fale-nos um pouco da sua infância. Onde você nasceu?

Thiago Galdino: Nasci e resido em Mossoró, num bairro chamado Lagoa do Mato, no dia 06 de setembro de 1993. Durante minha infância, andava de bicicleta por todo o Boa Vista e adjacências; soltava pipa sobre a linha do trem (que já havia sido desativada há anos, tanto é que não tive a oportunidade de conhecer as famosas locomotivas); brincava de “policia e ladrão”, “esconde-esconde”, “garrafão” e “Sete pecados” nas ruas com os amigos. Passado o período escolar, curtia as férias na casa do meu avô materno, na pacata Upanema, cidade de atmosfera suave e tranquila; quando não, passeávamos no Assentamento Fazenda Palheiros, Assú e/ou Felipe Guerra, onde moram diversos parentes interioranos. 

101 Livros do RN: Qual o livro que você leu quando criança que mais te marcou?

Thiago Galdino: Quando eu era criança, lembro que a minha mãe possuía toda a coleção “As Grandes Telenovelas”, lançada pela “Rio Gráfica e Editora” em meados de 1985. Esta reunião era composta por doze livros (entre eles “O Bem-Amado” e “Irmãos Coragem”, de Dias Gomes e Janete Clair, respectivamente) que vinham como brinde junto às caixas de sabão em pó da linha Omo. Infelizmente, eu ainda não havia aprendido a ler à época, e o meu passatempo consistia em contemplar as capas que, geralmente, possuíam ilustrações que muito me chamavam a atenção.
Mais tarde, passando de iletrado para leitor em formação, tive o meu primeiro contato com os gibis da “Turma da Mônica”, “Pato Donald”, “Mickey Mouse”, “Zé Carioca”, entre outros. Foi uma maravilha! Não se pode comparar quadrinhos com literatura, já que são artes que, embora associadas, se diferem, mas ninguém pode negar que as HQs funcionam, na maioria das vezes, como porta de entrada para as “letras impressas”, por possuírem uma comunicação extremamente fácil e uma infinidade de assuntos e gêneros que podem ser aproveitados. 
Por fim (retomando o questionamento), em 2000, ano em que iniciei o Ensino Fundamental, soube que o governo tinha acabado de destinar alguns livros infantis às escolas públicas do RN, e decidi que esta era a oportunidade perfeita de aventurar-me em uma literatura em “formato” de livro narrado. A primeira obra que me chamou a atenção, não me recordo ao certo por qual motivo, foi “Menina Bonita do Laço de Fita”, da escritora Ana Maria Machado. O livro traz algumas gravuras e trata a questão das diferenças, valorizando a diversidade a partir da raça negra. Nunca me esquecerei...

101 Livros do RN: E seus pais? Eles sempre apoiaram a sua decisão de escrever? 
Com que idade você compôs os seus primeiros escritos? E abordavam que temas?

Thiago Galdino: No intervalo das aulas na Escola Estadual Monsenhor Raimundo Gurgel, enquanto os outros alunos costumavam se divertir circulando e conversando pelos corredores, eu caminhava, sem pressa, pelos mundos fictícios entranhados nos livros, na biblioteca do colégio. Depois que os meus pais perceberam esse meu fascínio pela literatura, passaram a me presentear com obras da melhor qualidade; aquilo para mim era demais, mas até então, eu era apenas um leitor voraz.
Aos doze anos de idade, porém, fui pego por um início de depressão, e como forma de esquecer-me da angústia profunda, a princípio como um mero passatempo, comecei a esboçar, sem saber, o que viria a ser o meu primeiro livro. Acabei tomando gosto pela coisa, procurei textos que me interessavam e busquei aprofundamento no campo literário... No entanto, digamos que eu comecei a escrever com afinco em 2011, quando retornei aos rascunhos da minha infância e iniciei um processo de reescrita; ainda no mesmo ano, consegui o contrato com uma editora.
Antes de 2005, apenas tentava imitar os autores que eu lia ou arriscava, vez ou outra, pegar uma gravura de revista e criar alguma estória a partir dela. Desta forma, os temas eram variados e quase que sorteados (risos).

101 Livros do RN: Por favor, nos fale um pouco sobre a sua obra de estreia, "Suspeitas de um Mistério". Como surgiu a ideia inicial para a criação deste livro?

Thiago Galdino: “Suspeitas de um mistério” narra as peripécias e aventuras de dois irmãos pré-adolescentes que são exímios espiões-mirins. Eles são curiosos e não deixam passar quaisquer fatos, por mais sutis que sejam. Os jovens recebem uma carta dos seus tios, pedindo que visitem a sua fazenda, pois estão passando por sérios problemas financeiros. Quando chegam ao local, no entanto, os dois desconfiam de muitas coisas, a começar pelo estranho comportamento do tio, que todos os dias frequenta o bananal da família, mas não traz fruta alguma quando retorna à residência. Estranho também é que a bananeira diante da qual ele costuma ficar por longos períodos não dá frutos. E isto é só o início do problema. Muito mais fatos incomuns sobre o tio dos garotos ficam evidentes e os levam a seguir cada passo seu.
A ideia primária surgiu após a leitura do livro “Tom Sawyer, detetive” (1896), do ilustre escritor norte-americano Mark Twain. De alguma forma aquela obra me fisgou, me chamou a atenção, tanto que fiquei pensando nela por muito tempo após o “término”. Senti-me necessitado a escrever uma estória como aquela. 

101 Livros do RN: Quanto tempo levou para criar a obra? Como você se prepara para escrever um livro?

Thiago Galdino: Com os rascunhos em mãos, levei cerca de um ano e meio (sem contar as pausas que tive que dar vez ou outra a favor dos estudos escolares) recriando as personagens e alterando os cenários, diálogos e enredo aos moldes do leitor infantojuvenil, já que nesta primeira versão (fruto da infância) o público-alvo ainda não estava bem definido.
Antes de escrever, costumo ler bastante o gênero que abordarei, a fim de familiarizar-me com as peculiaridades, características, estilo e estrutura da categoria; em seguida, pesquiso extensamente sobre todos os elementos que envolverei na trama, criando uma espécie de roteiro sobre os cenários que serão posteriormente usados no desenrolar da estória; por último, anoto e esboço todo o enredo, que funcionará como um mapa através de tópicos seqüenciais (isso evita que o meu texto entre em contradição e saia do tema quando o livro começar a ser escrito).

101 Livros do RN: Como aconteceu o processo de editoração?

Thiago Galdino: Após o envio do original para apreciação, aguardei cerca de trinta dias para receber o parecer de aprovação da editora. Os demais processos (projeto gráfico e diagramação) foram concluídos em três meses, período este em que recebi a prova final do livro (capa e miolo) e pude apontar acertos, pequenas mudanças na capa e autorizar a produção gráfica para impressão. 

101 Livros do RN: Como se sente com a receptividade das pessoas que leram a sua obra?

Thiago Galdino: O livro de estreia é sempre o mais temido, afinal, ninguém quer ter o seu (primeiro) trabalho repreendido. Realizei um Book-tour da obra para ajudar na divulgação e receber o ‘feedback’ da narrativa; neste evento, recebi algumas críticas que me desencorajam a continuar escrevendo durante algum tempo, até alguém me perguntar qual dica eles me deram para consertar os erros que me foram apontados. Dei-me conta de que nenhuma! Foi quando percebi que estava em jogo o parecer individual de cada um, com base em suas apreciações literárias que, muitas vezes, poderiam não condizer com a qualidade do livro em âmbito global. “Só tem o direito de criticar aquele que pretende ajudar”, já dizia Lincoln.
Felizmente, passado este período, começaram a crescer o número de leitores que me diziam terem adorado a leitura da minha obra, de forma que os elogios superaram satisfatoriamente as críticas. Surgiram então oportunidades em coletâneas, portais literários, programas de televisão, entrevistas, etc.

101 Livros do RN: E na atualidade, o que você gosta de ler? Quais são os seus autores favoritos?

Thiago Galdino: Ultimamente tenho me dedicado exclusivamente a leitura de contos. Gosto da sua estrutura fechada, da narrativa concisa, da densidade psicológica e da presença de um único conflito que precede o desfecho.
Sem distinção por gêneros literários, gosto dos autores brasileiros Dalton Trevisan, Luiz Vilela, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola Brandão, Whisner Fraga, Raul Drewnick, Pedro Bandeira... Dos estrangeiros: Mark Twain, Robert Louis Stevenson, Charles Bukowski, Alexandre Dumas, J. K. Rowling...

101 Livros do RN: Qual o seu escritor preferido dentro da literatura local? E nacional?

Thiago Galdino: Dentre os artistas regionais, destaco não um prosador, mas um poeta: Antonio Francisco. Os seus cordéis são de uma qualidade ímpar, em todos os aspectos. Admiro-me com a musicalidade dos seus versos, a fluidez e os temas abordados, que sempre me emocionam. Gostaria apenas de tê-lo conhecido antes, já que a sua companhia é sempre muito agradável; quando nos encontramos, são horas de conversas...
A nível nacional, sou fã incontestável do Pedro Bandeira. Os seus livros agradam a muitos por que tratam de emoções humanas, como afirmou, certa vez, o próprio escritor. Há neles uma narrativa hábil, mesclada com a arte de criar suspenses e se reinventar que só o Bandeira consegue fazer.

101 Livros do RN: Qual livro está na sua cabeceira no momento?

Thiago Galdino: Estou lendo a primeira edição (1997) da antologia “Contos Brasileiros”, organizada pelo escritor gaúcho Sergio Faraco e que reúne grandes nomes da literatura nacional, como Moacyr Scliar, Luiz Vilela, Dalton Trevisan, etc. Os textos presentes neste livro abordam sentimentos comuns a todos nós, como medo, melancolia, espanto e admiração, fazendo com que a obra se torne um retrato de realidades brasileiras do século passado.

101 Livros do RN: O que você acha do incentivo à literatura no RN? Por quê?

Thiago Galdino: Péssimo! Há omissão do poder público em relação às publicações, com órgãos culturais sem funcionamento; leis fissuradas que nunca saem dos papeis e falta de continuidade dos concursos literários. É preciso que se chame a atenção dos governos Estadual, Municipal e da própria sociedade.

101 Livros do RN: Qual o melhor momento para escrever?

Thiago Galdino: Nesta pergunta entra em questão a famosa frase “1% de inspiração e 99% de transpiração”. Muitos escritores dizem que não existe lampejo, mas prática constante. Eu, particularmente, acredito na “iluminação”, no anseio irrefreável de expor aquilo que me pede o manifesto. Esta inspiração pode me bater à porta a qualquer momento e em qualquer lugar, e antes que eu a abra, ela já se faz presente, sem cerimônias; é como se a ideia estivesse pedindo para ser dita, como se o subconsciente me apertasse forte para que eu a jogasse sobre o papel. Este é o melhor (no meu caso, único) momento para escrever. Já dizia Bukowski em seu poema “Então você quer ser um escritor?”: “(...) a menos que isso saia sem permissão do seu coração, da sua mente, da sua boca, do seu âmago, não escreva (...)”.

101 Livros do RN: Além de ficção, você escreve em outra vertente literária?

Thiago Galdino: Há pouco tempo entrevistei o Manoel Onofre Jr. e perguntei por que ele não se aventura também nos poemas, ao que me respondeu: “Infelizmente, não tenho o dom da poesia”. Sinceramente, acredito que eu também não o tenha. Já participei de movimentos e projetos culturais de incentivo à criação em versos, inclusive um desses textos será publicado em uma antologia que homenageará o poeta brasileiro Gonçalves Dias; porém, não é um gênero que me inspira, apesar de apreciá-lo em minhas leituras. No momento, o impulso criativo me puxa somente para a ficção.

101 Livros do RN: Do que sente falta no mundo da literatura?

Thiago Galdino: O Brasil não é um país de leitores, infelizmente. Existe aqui uma classe média que só agora está começando a criar o hábito da leitura, mas com livros caros e pouquíssimas livrarias. No inicio do ano passado li uma matéria que dizia que o número de leitores havia caído mais nove por cento desde 2007. Dá pra acreditar? Sim!

101 Livros do RN: Como você enxerga o mercado literário mossoroense para produções independentes e de novos autores?

Thiago Galdino: A editora Sarau das Letras e a Queima-Bucha estão na cidade justamente com o objetivo de incentivar a publicação independente e de autores estreantes (mas não somente), pois em nossa realidade, a editoração e publicação de livros ainda necessitam de incentivo e estímulo. Já que as verbas públicas são quase inexistentes (como já disse anteriormente), que haja ao menos uma espécie de orientação editorial proposta por estas editoras.

101 Livros do RN: Você tem contato com o pessoal que produz literatura em Mossoró?

Thiago Galdino: Com boa parte dos escritores, sim. Depois que se engaja no meio literário, o entrosamento acontece de forma quase natural. Propõe-se reuniões, lançamento em conjuntos, saraus, etc. 

101 Livros do RN: Você conhece outros jovens da sua geração/idade que têm obras publicadas, por exemplo, no RN?

Thiago Galdino: A literatura potiguar tem ganhado novos talentos nos últimos anos, o que é ótimo para o crescimento cultural do estado. Peço desculpas se estou esquecendo alguém, mas cito seis nomes que acredito ter bastante potencial: Daniel Násser (28 anos), macauense, autor da trilogia “A Ordem da Rosa Branca” e editor da ICEC; Gustavo Diógenes (19 anos), natural de Natal, autor do livro “Acáci – Mundo 17”, bastante elogiado pela crítica e prefaciado pelo poeta Sanderson Negreiros; J. B. Oliveira (21 anos), natural de Pau dos Ferros, autor da trilogia “Filho da Morte”, que teve o primeiro volume publicado pela editora carioca Multifoco; Leonam Cunha (18 anos), areia-branquense, autor do livro de poesias “Gênese”, publicado pela editora Sarau das Letras; Yuri Hícaro (26 anos), natural de Pau dos Ferros, autor do livro de poesias “Um Canto Conforme a Noite”, lançado pela Coleção Cultura Potiguar; por último e não menos importante, menciono a escritora Renata Nolasco (18 anos), natural de Mossoró, que estreou neste mês com o primeiro volume de uma coletânea intitulada “Guardiões”, lançada pelo selo ‘Dimensões Ficção’ em um evento na Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte. 

101 Livros do RN: E quais os seus planos literários para o futuro?

Thiago Galdino: Pretendo resgatar até o fim deste ano todos os contos que venho publicando em jornais, revistas, antologias e portais literários, e lançar em 2014 uma coletânea com esses textos. Estou também às vésperas de concluir o meu segundo infantojuvenil, mas este ainda adormecerá por um bom tempo em minha escrivaninha até que eu o sinta maduro o suficiente para ser publicado. Sobre os títulos, por enquanto ainda não posso revelá-los.

101 Livros do RN: Você foi convidado para ser colunista no blog e na revista Ligados. Poderia nos contar mais a respeito?

Thiago Galdino: Foi um convite bastante inesperado, vale ressaltar, mas que me deixou muitíssimo orgulhoso. O Ligados surgiu, segundo o professor e estudante de Letras Felipo Bellini (idealizador), da necessidade de se criar uma mídia alternativa que desse uma opção às pessoas de ler um conteúdo que não é visto com frequência na grande imprensa, o que o levou a contatar alguns amigos para escrever no site. Houve certa expansão, e surgiu também um programa de rádio em que se falava de livros e criavam-se agendas culturais e perfis de bandas potiguares, entre outros. Aconteceram alguns problemas internos, no entanto, e o programa foi extinto; nesse meio tempo já se falava sobre o lançamento de uma revista cultural com conteúdo 100% autoral, em que os próprios envolvidos pudessem expressar uma opinião própria sobre determinado tema, sem depender de ninguém para escrever. E é onde entro na história.
Eu tinha acabado de lançar “Suspeitas de um Mistério” e tentava divulgá-lo de todas as maneiras possíveis; através de pesquisas, encontrei referências a respeito do alternativo cultural e, tentando dar mais visibilidade à obra recém-publicada, enviei um exemplar para resenha e sorteio. O fato é que a equipe gostou tanto do livro que logo em seguida fui convidado para tornar-me colunista, onde o meu papel seria entrevistar escritores regionais e nacionais. Posso dizer que está sendo uma ótima experiência, pois com esse contato com os autores, acabo por aprender bastante através dos seus erros e acertos. Até o momento, minha coluna literária já conta com 27 matérias. O ligados também está em um momento bastante produtivo, e em breve fundaremos uma ONG que leva o mesmo nome.

101 Livros do RN: Thiago Galdino por Thiago Galdino?

Thiago Galdino: Esta é a pergunta que me move. Espero nunca conseguir respondê-la...

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